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Dois pontos ainda quero reforçar neste último artigo da série Vida x ser. O primeiro deles diz respeito a um trecho do artigo anterior em que afirmava que “Em ambientes hostis, marcados pela falta de princípios, realmente não vale a pena olhar para os outros, porque ao invés de exercitarmos nossas virtudes, damos forças aos nossos defeitos”. Muitas vezes tenho afirmado que só vemos nos outros aquilo que temos em nós mesmos, portanto, quando paramos para mostrar o defeito dos outros, denunciamos o que temos dentro. Se percebo que o outro é preguiçoso, sei disso porque a preguiça está em mim e até a indignação pode ter dois sentidos: porque foge aos meus princípios ou porque fico com inveja daquele que pode ser preguiçoso. Este é o ponto em que o melhor é sair do cenário e se recolher para um encontro com a consciência. É comigo mesmo que resolvo o conflito. Na realidade não sou exatamente igual ao indolente, ao mentiroso, ao falsário, porque sei que o mal não mora ao lado. Enquanto minhas atitudes forem baseadas na crença de que o mal está no endereço do meu vizinho, poupo a mim mesmo o confronto com a minha dualidade e cada vez mais me distancio do ponto de equilíbrio.
Na realidade, para Ser, não é outro que interessa, embora ele possa servir de referencial para as mudanças que precisamos fazer em nós mesmos. A luta para Ser é constante e ininterrupta e lutamos , principalmente, contra nós mesmos, contra os nossos vícios, contra o nosso desejo de só ter prazer. A recíproca também é verdadeira: não nos tornamos melhores se a vida só nos oferece dor. Até o Cristo alternou a tristeza com a alegria, a dor com o prazer, a dúvida com a certeza, a tolerância com a impaciência, a calma com a ira. Muito já falamos que para cada virtude, na direção oposta, existe um defeito.
Volto então ao segundo ponto que quero analisar com mais profundidade. O primeiro foi não fixar as próprias atitudes no endereço do vizinho. Não importa quem seja o outro, a prestação de contas será feita comigo mesmo. O segundo, portanto, é: porque me irrito tanto quando identifico o defeito no outro? Porque o diabinho dele atiça o meu? Porque troco minha paz pela inveja. Por alguns momentos dou espaço para a dúvida, cedo ao princípio do prazer, fragilizo a confiança nos princípios que cultivo. Assim, a inveja aparece sobre um outro prisma, mais difícil de ser identificado. Inveja é quando desejamos o que o outro tem e nós não temos. Mas neste caso, desejamos no outro o que temos em nós mesmos. Sinto inveja porque o outro pode manifestar a sua preguiça e eu luto contra a minha.
Aos buscarmos o recolhimento, afastamo-nos das comparações que provocam a inveja; as dores e lesões espirituais que ela pode nos causar. O que a nossa natureza humana quer é contra o que o espírito quer e quando permitimos que um lado prevaleça, os frutos produzidos podem ser terríveis e os resultados podem atingir toda produção coletiva, gerando escândalos que mancham o bem comum. Como bem disse Albert Pike, “os homens não acreditam em seus corações que Deus é justo ou misericordioso. Tem temor e se encolhem ante Sua luz e temem Sua ira. Contudo, perseguem como infiéis e ateus aqueles que não acreditam no que eles próprios imaginam acreditar, embora não acreditem, porque é incompreensível a eles em sua ignorância e em seu intelecto”.
A inveja sempre foi um sentimento torpe e difícil de ser eliminado da alma humana e mesmo tendo conteúdo espiritual, é mais perceptível quando há apego na materialidade. No entanto, é preciso diferenciar a inveja da busca do bem-estar. Não há nada errado no trabalho que se faz para garantir a sobrevivência ou o conforto necessário para a manutenção da qualidade de vida (o que se pode obter sem causar prejuízo ao próximo). Invejar as virtudes que o outro tem é um sentimento mais sorrateiro. Aparece quando mental e destrutivamente nos consideramos mais dignos que aquele que possui a virtude que não temos.
Kleber Adorno
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